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A desilusão das boas intenções. Hoje apanhei com duas grandes desilusões. A primeira foi a exposição fotográfica “Viver Setúbal: uma forma de ver a cidade”. A premissa é interessante: uma mostra de fotografias antigas da cidade enquadradas com fotografias actuais, tiradas com a mesma perspectiva e ângulo das primeiras. Desilusão porquê? Porque por cada imagem antiga temos umas 10 actuais à volta e por vezes a imagem antiga é mínima e perde-se no meio das outras. As fotografias actuais parecem ter sido tiradas à pressa numa manhã e por um gaiato que pegou na máquina digital do pai. Não há tratamento ou correcção de cor das fotografias actuais, pelo que do mesmo local, uma está mais amarelada e a outra mais para os tons de azul, quando de facto foram feitas no mesmo momento e não entendo porquê. A falta de coerência nesse sentido é absurda como revela uma tremenda falta de profissionalismo, visão e dedicação ao projecto. Para “ajudar” as impressões estão péssimas, basta aproximarmo-nos um pouco para ver o grão e a falta de qualidade das imagens. Para terminar as fotografias são, na minha opinião, ínfimas. Esta seria uma exposição que deveria permitir os registos fotográficos antigos respirarem e viverem livremente e acaba por fazer exactamente o oposto. Segunda desilusão: ciclo de cinema no auditório José Afonso. Bem, por onde começar? As 30 cadeiras disponíveis revelavam de imediato a adesão que esperavam… Para começar, e enquadrando um pouco a situação, aquele Auditório ao ar livre foi um profundo erro de casting desta cidade. Constrói-se aquele “túnel de vento” (quem conhece a obra, sabe do que estou a falar) mas a Câmara não apresenta um projecto de desenvolvimento e de exploração daquele espaço. Nada. Cria algo já morto à partida e depois passa a batata quente para o associativismo regional na esperança de injectar um mínimo de vida. Chego ao auditório, enorme, e vejo uma tela amarrotada e ínfima, quando comparada com o tamanho do auditório, onde é projectado o DVD do “Ameaça Fantasma” com umas colunas que, não sendo nada de outro mundo, satisfazem o objectivo. Passados poucos minutos o filme começa e logo têm de parar a projecção porque o “técnico” colocou as legendas para surdos e em inglês; como não soube alterá-las devidamente, necessitou de parar o filme, refazer os passos iniciais, colocar as legendas correctas e apresentar novamente os primeiros minutos. Foi neste momento que abandonei o barco. Em casa tenho mais qualidade e conforto. Teria sido melhor colocarem a projecção do filme numa sala. Se, por um lado, reconheço a necessidade e a urgência de fazer algo, de realizar eventos e é melhor concretizar ideias/desejos ao invés de não fazer nada mesmo, por outro lado, há ou tem de haver uma responsabilidade de quem faz de fazê-lo bem feito. As boas intenções, não passam disso mesmo e não podemos justificar a falta de sucesso das nossas acções com um mero “ao menos tentámos” ou “não havia condições”. No caso do cinema, talvez se passassem para uma sala, as condições melhorariam profundamente. Não sei se foi uma condição, no apoio da Câmara, terem de projectar ali, no auditório, como forma de preencher uma lacuna que a própria Câmara não consegue preencher. Quanto à exposição, parem de gastar recursos de forma obtusa e ponham gente profissional a fazer o que tem de ser feito.
Isto passou-se em Setúbal, mas tenho quase a certeza que podia ter sido em qualquer outra cidade.
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